sexta-feira, 20 de julho de 2018

Side Effects


Side effects

Come drink the full moon
expunge my sadness away you brave
soldiers. Love ruins have become something
for which there is no name
no map will guide your fingers
no water shall curve those roses
dripping, dripping, dripping
matter, infinitesimal thickness
yet you and I have known
these stolen places and their meanings rising
like nimbos between words
shadows among the milky pattern
of bodies
The luxury of sand existence
In me shells and oracles

© 2018, José Coelho



sexta-feira, 1 de junho de 2018

Rouge Bouquet


*Rouge Bouquet*

Obviously it was a mistake, those round eyes and
fully adherent lips circling the sea - its
masculine voice drawing
giant shadows, bending hearts over
Sunday sandy fields - moistening what would soon become
faces, sad faces embracing in long
velvet dreams, the sort that suck your brain into the depths of
sugar lyrics and warm sperm; obviously
the mistake of counting waves, their
individual repetition falling as thoughts against
skeptic flowering walls ready to shout out
their spring meaning. However, their silence
remains the rouge bouquet one drinks before
love and death - garment of souls.
At such times the sun
as an ever lasting mother temple
shines its kindness and constancy
making it all seem so brute
and simple.

© 2018, José Coelho

terça-feira, 10 de abril de 2018

Anatomia de Nós

Somos amiúde
mais que mãos, dedos, olhos, chuva, cheiro, terra
amiúde há que optar pelos sítios mais inócuos
para que o toque não se quebre e continue
sendo o requinte de uma pétala
a florir encurvada, rosa-creme-leite
pálpebra semiaberta, humedecida quase
rio, amiúde somos
água deslizando sem razão, apenas
uma força que puxa matéria
aquela escondida por detrás do olhar
das mãos, dos dedos amiúde surge
a gravidade das coisas
dos sítios das palavras nascem
arrepios e pensamentos
da forma e textura da pele
levanta-se a briza que aflora o mar
suave até ao abismo e deleite
da espuma.

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Anatomy of Us

We are often
more than hands, fingers, eyes, rain, smell, earth
we often have to choose the most innocuous place
so that the touch doesn't break and continues
being the refinement of a petal
flowering curved, rose-cream-milk like
half-open eyelid, almost moistened
we are often
water sliding for no reason, just
a force that pulls matter
the one hidden behind the gaze
of hands, of fingers often arises
the gravity of things
within words plot are born
shivers and thoughts
the shape and texture of skin from which
the sea breeze rises touching the surface
smooth up to the abyss and foam's
delight.

© 2018, José Coelho

domingo, 8 de abril de 2018

Alameda Sul


No outro dia pude verificar o quanto em nós vive, sem nos pertencer. E à medida que avançava por ruas ladeadas de lápides de mármore e cimento, eram árvores de ramos cinzentos a chorar infinitésimas lágrimas verdes, daquele verde vida, tenro, transparente, iniciador dos espaços e das estações.
Opto, normalmente, por não falar a ninguém. Absorto em ideias de sentimentos, elapso o tempo numa espécie de roteiro do intocável, frágil mas sereno, eu.
Também nunca soube o número exacto, aquele que me levaria à morada certa, rapidamente. Requere-se um processo de aproximação algo ansioso, uma forma imperfeita de adequação a um mundo singelo, desconhecido. Ao invés de certezas, oriento-me pelos edifícios que ladeiam o lado sul. E sei que à semelhança de em vida, na morte ela permanece por perto. Como se não ousasse afastar-se da sua identidade.

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The other day I was able to verify how much in us lives, without our belonging. And as I moved along streets lined with tombstones of marble and cement, it were trees of gray branches weeping infinite green tears, the sort of that life green, tender, transparent, initiator of spaces and seasons.
I usually choose not to speak to anyone. Absorbed in ideas of feelings, I spent time in a kind of script of the untouchable, fragile but serene, me.
I was also never aware of the exact number, the one that would take me to the right address, quickly. It requires a somewhat anxious process of approximation, an imperfect form of adjustment to a simple, unknown world. Instead of certainties, I focus on the buildings that line the southern side. And I know that as in life, in death she remains near. As if she didn't dare to turn away from her identity.

© 2018, José Coelho




segunda-feira, 19 de março de 2018

Paisagens Vespertinas

Paisagens Vespertinas

Inúmeras vezes, sem me dar conta da razão, voltei. Havia uma atracção vã pela matéria e pelo cheiro; uma viscosidade dócil que aderia à química do coração. E na pele vespertina, esboços de fugas para um amanhã.

Mais tarde apercebi-me também da importância do som. Para lá disso mesmo, era um embalar de motor que encaixava plenamente nos espaços livres. Completo o puzzle, produzia-se assim o efeito solução e tudo concorria para um pico de pura felicidade vernal.

Devo admitir que amiúde fantasio com estas recordações e que apesar de distantes e finas no tempo, a sua aura foi evoluindo para algo que hoje poderia classificar de patético e sublimado – entenda-se que é tudo na minha imaginação.

Há ainda pouco tempo, tive o prazer de ser assaltado por um conjunto de emoções que inexplicavelmente me levaram ao pranto. Regozijei-me com esse momento de ilusão; apesar de curto, foi real.

© 2018, José Eduardo Coelho


domingo, 18 de março de 2018

Paisagens Rúbeas


Paisagens Rúbeas

Sentir aquele prazer infantil, de nada
ter de fazer, senão estar e observar
uma dormência que desce pela espinha
o quanto, apesar de inúteis somos
queridos, presentes, constantes como
peça de joalharia fina, ao pescoço
brilhando, escondida

Acerco-me desses dias apenas
vagamente induzo propriedades quentes
que acredito residirem algures
dentro de mim posso
acordá-las e olhá-las com a inércia
da saudade

Depois há os mapas, que digo
serem de cidades, mas em verdade são
representações das almas que já
amei e amo

Habito-as a todas, ensino-as
por quadrantes e linhas respeito
cada casa, cada parque, cada rio
memorizo seus cursos

até à foz há-de ser
oceano.

© 2018, José Coelho



quarta-feira, 14 de março de 2018

Lascívia e Mel


Lascívia e Mel

Os pressupostos são claros. Lascívia e mel para toda a gente. Pequenas doses faseadas ao longo do dia, mas a intervalos mais curtos pela manhã. É essencial introduzir o estímulo pela garganta dos oprimidos e madrugadores. A bem da esquinas ou doutras zonas pontiagudas, que florescam os lírios e/ou as açucenas cândidas, que se ruborescam faces e seios se ajeitem. Do leite surgirão as curas dos nossos problemas, tão míseros como
catequistas. Seguiremos bocejando às portas de monumentos de alvenaria, bem como de freiras conventuais ou ainda de lustre de conas benzidas.
Sem mais de momento,
Porra!

© 2018, José Coelho