sexta-feira, 22 de julho de 2016

Que Fazer Com o Poema?

Que Fazer Com o Poema?

Sendo que a imagem tornou-se mais
forte
que o que nela
se mostrava

E não serão assim todas
as imagens -
mais do que elas
próprias, por direito, em si
encerram

Sugestão de outras
vistas, vividas, imaginadas
monólogos sem rédea
num tropel pegado

Ah! Fiasco!

© 2016, José Coelho


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Perversões do Meio-dia

Perversões do Meio-dia

A minha empregada não
percebe nada de poesia e
além disso
desordena-me os livros
todos – vou
despedi-la, já!

disse, entrementes

Depois, fez a cadeira
girar uns 30º e
colocando ciosamente os pés entre
duas edições da História
Trágico-Marítima
virou a página e deleitou-se
com mais umas
nalgas, empinadas

Semanalmente
à sexta-feira
a sua encomenda de revistas
eróticas estrangeiras
chegava
dando-lhe tréguas aos livros
e à escrita
para se dedicar a um momento de
- segundo ele -
infusão vaginal

E enquanto eu vertia chá
ou café – a gosto -
em copos de plástico
não alimentar
a cidadãos despreocupados
ele
literalmente
babava-se.


© 2016, José Coelho



quarta-feira, 20 de julho de 2016

Aseptic Tragedies

Aseptic Tragedies

On occasions I am
reminded of its flavor
and as a bile duct, serving
merely as a vessel
of transmission
I convey

The idea of the blade
surgically
cutting tissues
The touch of hands
against
the rugged wall
The flavor of blood
deluging
from within
and still the feeling
of live flesh -
mesmerizing images
(everywhere)

As I said, only on
occasions – maybe
there's no proper composition
to describe it -
they become so harshly plural
arrogantly sick
standing full of them selves
like waves
engulfing the sea
pretending to believe
their heart – a germ-free
empty room -
will hold the sparkling
truth

But then, I see
the shrinking of human
qualities
into debris like
elements – a sculpture of once
living things
dying
for life

And all that nonsense while
waving at each other
goodbyes; looking ahead
it wouldn't defy any
ethics
to wash my wrath
anew with
blood.

© 2016, José Coelho


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Endemic Fugue

Endemic Fugue

All day, as ants
following footsteps
tracing history

Each hour, stupidity
plugs my skin;
the real I tries no defense

A side effect, the size of
past and future;
an eternal missing now

© 2016, José Coelho


domingo, 10 de julho de 2016

Evidence of Water

Evidence of Water

As the stream flows along
that small rivulet
satisfying the dogs
this short sentence pops to my mind:
Evidence of Water -
one of the first words I heard
her say;
evidence of something
beautiful
underneath her soft, unsullied skin
rolling through her tongue
to the world – a gift
of nature
performing its chemistry

Each time, that same conviction
of birds
on their first flight
besides, the awareness of
meaning
I'm sure the meaning was there
cuz that's how words
are given form
but the awareness is an outer
peel, like a defense
an extra concrete layer, made up to
fasten the central structure
preventing it from bouncing
on stormy days.

[ there is no evidence without
awareness
which, in fact, is irrelevant ]

The most crucial thing being
water – not the liquid, but
the idea we make of it - the concept
we are able to speak out
and look at
from a distance.


© 2016, José Coelho


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Is Squeezed Tomato a Fruit or a Vegetable?

Is Squeezed Tomato a Fruit or a Vegetable?

Let´s observe
the glass; from this
perspective one can watch how
the inner content
moves, sliding
slowly
creating paths between stronger
cohesive nuclei
as if looser forms always became
weaker, thus less
individual, thus more
unremarkable
Yet, it's the bed in the glass
that is calling me -
my thirsty eyes
begging.

© 2016, José Coelho


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Descrição de Um Fim de Dia

*Descrição de Um Fim de Dia*

Descemos a marginal junto à costa
pacientemente
saboreando cada curva, os matizes torrados
de fim de tarde, rebentam
nas pedras, na areia das fachadas
deslizam
sob o calor, emprestam desejos
às formas intimas que
espreitam

das janelas – seios, mãos, faces -
almejam-se outras margens

Dadas as limitações
não paramos

há uma linha de pensamento
a seguir - melhor, ela flui -
e nós enfetiçados
nada fazemos, senão
sermos matéria de
continuidade

nesse estado
de inércia
afloramos à superfície
de fortes, fortalezas, palacetes
requintados
aquários ao abandono sem água
nem peixes
para além de pinturas
exótico-intro-
vertidas

Não há exagero qualquer
na pequenez que somos

qualquer grama adicional seria
fisicamente
móbil destruidor

Há que respeitar
as relações de força

Sucedem-se praças magníficas
monumentos em decadência
mosaicos
duma exuberância jovem – fontes, relvados
grafitis coloridos -
exalam uma desconcertante
paixão
pelo futuro

e as pessoas, essas
sorriem e abraçam a atmosfera
que vaza como um rio
calmo, ordeiro
sedento da sua
foz
larga
acolhedora

depois
voltamos à estrada – o asfalto é
ainda um corpo de mulher
macio, quente
que pede
carícias
sem delongas

do céu
ou talvez das pontes ou
do cristo
pingam sinónimos de
amor, alegria
e outros que tal
porém
noturnos
passam despercebidos

As luzes do automático
acendem-se
e alguém sugere que
continuemos.


© 2016, José Coelho