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quinta-feira, 22 de junho de 2017

Finas Amarguras

Finas Amarguras

à noite o doce
verte-se pelas bordas

todas
e penso nessa última em
que te toquei

avistámos tantas ilhas
sem nunca nalguma atracarmos

derramando um cheiro quente, picante
que, peganhento, fica

atravessámos jardins desertos
sem nunca ousar habitá-los

trocando a ultima respiração num beijo
de morte, subtil.

© 2017, José Coelho



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Da Placidez da Noite










Da Placidez da Noite

A noite, enquanto ideia
arrecada uma cor purpurina e suaviza
metais
de fio cortante
Arquipélagos antípodas - indecisos entre
este e oeste – soem banhar-se
na mesma luz
oceânica, à noite
enquanto as marés trabalham
e o som disforme dos astros
navega
rumo a nós -
nós, mais baços, mais ingénuos, mais
porosos -
sentimos a luz
morna da lua, descer
e nivelar, qual água dando-se
à praia, intrépidas
e granulares diferenças.


© 2016, José Eduardo Coelho



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Grandes Certezas

A grande certeza da noite: dispo-me antes de entrar
na cama; gostaria de dizer com sabor a vodka negro ou
outra qualquer bebida forte, mas a verdade é que a lingua
saberá a pasta dentífrica e
não me queixo – também ajuda a adormecer quando
casado com o livro certo.
A vizinha mudou-se e com ela foram as horas e os minutos
nocturnos – os outros não, felizmente!
Lá fora, o frio imobilizou as árvores; com a ajuda de todos
transportámo-las para o interior e acolchoámos
as paredes de musgo, o que deu um ar de
caça e pássaros a esvoaçar
Assim que, em vez de ler, pego numa caçadeira
que guardo debaixo da cama e ponho-me aos tiros
imaginários – não há arma, só dedos que cravam
estrias rasgando a pele seca – e a contar mé més que surgem
surgindo a confirmar o silêncio, que se instala
Qual será a próxima questão? O irromper
do cuco, no relógio
talvez.

The night's big certainty: I strip off my clothes before getting
into bed; I would love to say with a black vodka flavor or
any other strong drink, though the truth is the tongue
will taste toothpaste and
I'm not complaining – it helps just as well dozing off when
married with the right book.
The neighbor moved away and with her gone are the nightly
hours and minutes – not the others, luckily!
Outside, trees got frozen; with everybody's help
we've moved them inside and padded
the walls with moss, which made it look like
hunting grounds and birds flitting about.
So, in place of reading I grab a shotgun
kept under the bed and open imaginary
fire – there's no weapon, only fingers spiking
striations tearing dry skin apart – counting baa baas which arise
appearing to confirm the silence that settles.
What will the next question be? Cuckoo's outbreak
in the clock
maybe.


© 2016, José Eduardo Coelho

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Afinal A Noite

Afinal, a noite não encerra grandes mistérios
nem vozes oblíquas destapando a dor
entre dedos vorazes
                                em pranto, não
Afinal, tudo isso é um lastro
no fundo de nós, resquícios
do mar salgado a penetrar orifícios
suculentos, de ternuras
imaginadas em mãos desaparecidas
                                 em pranto
Afinal a noite, não desfaz a exactidão do dia
nem na razão inversa da grandeza da sua
escuridão
nem esquecendo  o ímpeto acumulado
em cada rotação ad infinito
nas sílabas do negro espaço

Afinal, a noite
é só uma ausência.


© 2014, José Eduardo Coelho

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

a lua continuou a avançar

Embalada pelo odor morno da noite,
a cidade deixou-se adormecer.
No céu, a lua,
continuou a avançar,
rumo ao ocaso,
ébria de memórias,
guardadas,
mas por contar.