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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Mundo Cão

Mundo Cão

dizem que os artistas
vivem de mãos dadas com os sonhos
como as crianças
sempre de olhos postos no ar -
                                         algumas!

outras, comprometidas
nos olhos alheios
secaram-lhes o azul
do céu, nem mais uma gota
de chuva ou raio de
sol, a fundir corações
(serenas)

de latas tinindo ao vento
numa alegria de mácuas
desfeita pela força do poder
pelo sarcasmo da lua
                  des li zan do
a sua inércia pela noite
incapaz de parar e berrar
ao firmamento

as atrozes e sangrentas proezas
perpetradas,                       porque sim
diluídas em kms de
esquecimento e afável conforto
estúpido
pelo homem, império
na sua breve loucura, conspurcando
em devaneios, arroxeadas
cicatrízes

dizem que os artistas
são génios de alma volátil, seres mais perto de Deus
como as crianças
sempre de azedas na boca -
                                   algumas!

outras, egoistamente usurpadas
jogam às cartas com o diabo.


© 2014, José Eduardo Coelho

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sobre Poesia

Sobre Poesia

(Irreversivelmente descrito)

                              Porém,

à minha frente, uma
rapariga
passa, passeando um cão;
banco de jardim.
Eu estou sentado a ouvir;
os velhotes nas suas colmeias
de cartas e mangas de camisa
puxam biscas e manilhas
a perderem-se de sol
e sombras;
as sombras,
da rapariga e do cão;
não queria falar delas,
nem deles, mas
a verdade é que
dou por mim a pensar
no efeito
de um no outro
sim, pondo os óculos, a rapariga é
bela e suave, quase,
diria serenamente física de luas
cheias e novas e um tom
de tangerinas
quando se trincam, ácidas,
enchentes de goma
mas a questão é,
                        o contributo do cão
altivo, cauda em riste, ligeiramente
ondulada,
frisados os pelos,
compridos,
saboreando a brisa do parque,
o cheiro da relva
penetrando
os sentidos mais animalescos
e a minha percepção desta composição
poética
por realizar;

...e a graça com que avançam!

A beleza de um, atrai a do outro
e não consigo decidir qual e se
hei de eliminar.

O sol vai alto, ofusca-me!
                                   em lágrima

Certamente antevejo já uma casa
de ventoinhas
ecráns tácteis em pátios refrescados
plantas exóticas crescendo descontentes
ao redor das noticias quentes de mais um verão
pingado

Eu desmonto a minha tenda e ponho-me todo
de interiores,
sintético, analista
teclado cerzindo, dedos troando
numa tentativa inútil
de soprar
à secretária febril dos meus
pensamentos
aquela manhã, de tágides
saída.

Deste velho 5 andar
onde convivo com baratas,
um ou outro rato e fabulosas vistas para o
Sul
desconcentro-me finalmente nas tuas águas eternas
e escrevo.

© 2014, JC