domingo, 4 de março de 2018

Lucky One


Lucky One

In reality, it all goes down to a set of dynamically emotional pictures faithfully kept at the media library of our cerebral cortex.”

It would maybe be around six-forty. Time entered slowly into that edged luminosity - the hour when tips are broken, ceasing to be, and brief stories hand-and-line mended are resumed. A mother returned home, from work, walking. A necessary survival as well as learning life constant. A child waited by the window. A lingering heartbeat, measuring the thickness of fear, stuck to the darkness beyond the cold glass. An urgency of blood ran through the city arteries. The trees, so far uncovered and muted, were the melancholy. That we shared, all of us, like air and water and earthly roots. Then there were the eternally immaculate birds, which in these days went sheltered in arcades and chimneys. One waits upon the arrival under the awe of sickness. Maybe the one and only possible way.

Ten minutes would probably have gone by when the thud sounded beyond the gates and walls, and the red stained the paint-white and the dark tar-gray. On the road, a mother-woman lay. For a moment everything stopped, except the clots, gushing. Two ambulances came. People gathered in frigid anguish. Everything went as planned.

The child hugged the mother more intensely. This time, she was lucky.

© 2018, José Coelho

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Contrições

Pesos oscilantes, como memórias construindo a noção de tempo vago inseguro, talvez apenas o resíduo de certas imagens, escorregando, distorcidas, temporariamente, sempre temporariamente, enclausuradas numa cápsula de vidro, velho

Rodamo-la na esperança de ver, com paciência, o interior, como nas imagens do livro, que não estão lá, escondem-se, e depois de esquecidas, aparecem, vivas num admirável leque de contornos

Mas a luz é soberba e cega. o sangue flui devagar, a medo, e a ânsia, essa, galga o horizonte contrito das vidas que temporariamente esquecem, deitadas sob areia deste sol, redondo.

Mesmo que só (havia, porém,) um desenhar de ósculos a lamber a terra no vai-vem das ondas, uma floração contínua no limiar das nuvens, uma anunciação precoce na transparência das vestes, finas e reticulares mãos palpando a textura da fronteira entre o ser sujeito e o ser objecto

Pergunto-me se haveria um plano, esquecido numa qualquer gaveta sem mapeamento, a qual terei, porventura, negligenciado - morro por abrir e revê-la como quando caminho por uma rua da minha infância, lentamente, adocicando cada porta, cada janela, cada tijolo à mostra, respirando um elemento que apenas posso classificar de, mágico, pois é esse que me aproxima, de mim, dos outros e nos injecta luz

Quantas terão sido as  vezes que abusei do amor dos outros?

© José Coelho, 2018



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Um País Chamado Gustavo

Um País Chamado Gustavo

não existia, mas
nele os padrões das calçadas eram
labirintos conjugados

onde sol e lua
se deitavam, satisfeitos
nas mãos de crianças

faróis e alvéolos
das marés ocidentais
o corpo de poentes

deslizando tal caracóis
na superfície que seria tua
pele

escrevendo tudo o que
mais tarde, seria
um recital

de poesia
se vivia nesse país
chamado, Gustavo

© 2018, José Coelho

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Poesias Mudas

Poesias Mudas


a concentração de tudo aumenta na razão inversa da altitude e do desprendimento
(conseguido)
obtêm-se empíricas fórmulas do mundo - uma questão de panos e hábitos, com que se cosem
os nomes e os sonhos vivem

há um patamar acima do qual o silêncio, nos assusta
prosseguindo numa espécie de onda mater pela qual todos
teremos de passar

uma definição vazia, onde a minha mão entra e se dilata até à
plenitude do espaço

sinos, sinos, sinos
húmidos e voláteis, retinem-me no córtex

poderia de uma só vez, habitar essa vontade
injectando poesias mudas

ao comprido, cingo-te
esboço a tua cintura, o teu pescoço
é uma dose de saliva que engulo

o mar hoje cala-se
também

© 2017, José Coelho



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Ordinarily, One Lives / Vulgarmente, Vive-se

Vulgarmente, Vive-se

Sabemos que para além deste lugar, só o teu véu
e esse corpo de areias finas, miragem
perene ou não, lúcula corporal. Eis-nos pois
débeis criaturas sorvendo o orvalho, folha a folha
e algo como esperança fecunda

a imaginação – esse colectivo de neuro transmissores, apto
à criação de falsas mentiras - abandona-se ao despropósito
e nas ilusões mais doces nasce o fel
do desengano

Julgámos ter avistado, ontem
a serena beleza dessa praia, por entre cortinas
de ramos e folhagem, a tua
respiração

e assim alimentados fomos
sentindo por instantes o estímulo
da coragem e a vertigem foi
o bastante

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Ordinarily, One Lives

We know that beyond this place, only your veil
and that fine sand body, a mirage
perennial or not, a luminous body wrinkle. Here we are then
weak creatures sipping dew, leaf by leaf
and something as hope impregnates

imagination - that neurotransmitters' collective, fit for
the creation of false lies - abandons itself to nonsense
while within the sweetest of illusions the gall of disenchantment
is born

We thought we saw, yesterday
that beach serene beauty, among curtains
of branches and foliage - your
breath

and thus fed we became
feeling for moments the courage's
stimulus and the vertigo was
more than enough

© 2017, José Coelho



terça-feira, 3 de outubro de 2017

Inevitably Unresolved

Hard Leather Tie

Those days when the bus arrived
people got into it
we got into it - me and the people -
I say there was a profane
litany in the journey
emanating from an ambiguous location
questions without answers
repeatedly coming

while concentrating the gaze on the thought
outside, I say
there was a methodical swaying
comparable to that of a hard leather tie
suspended from the rod, confining
the hands they held, firm

the same vivid, drunken questions
answers trying to silence the
green, cruel, humiliating monster
which always renounced quiting
(me)

At those hours the river was
badly defined, the city alienated
the streets were dying in
a few meters or even
debated into an infinite
submerged by mist’s chance
the chest’s weight swallowing it all in a dark blue suffocation

By the hands – all by themselves -
neither Amsterdam, nor Lisbon
just the sky
inevitably unresolved.


©2017, José Eduardo Coelho

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

De Clavells i D'altres Desitjos

De Clavells i D'altres Desitjos

Na primavera os árabes
saíram à rua em desobediência democrática
e penaram as almas e os corpos
ante a inópia e a arrogância

vís são os tiranos! Ouvia-se cá
deste lado e nós
numa comunhão de direitos
humanos enaltecemos
essas vozes, tantas logo
sonegadas

Andámos a lutar por pão
saúde, educação e       já agora liberdade
de expressão - onde, quando, para quê -
e agora turvam-se as opiniões
que são questões internas, que
a constituição isto e os juízes
aquilo – como se a vontade deste povo fosse
uma coisa ruím, uma demência a tratar
à luz de uma lei hipócrita
democrática mente ditando silêncios
obrigatórios

e depois há aqueles – políticos - sempre
a pedir mais
participação, envolvimento, consciência cívica
adesão – pois para esses, digo eu
querem mais envolvimento que este que banha
as vossas nalgas
e destempera os vossos desígnios? - a bem
de uma união
à força

(Sem esquecer que até os Curdos…)

Que nasça o momento de lucidez e que a coroa
brilhe apenas depois do povo falar.


© 2017, José Coelho