sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Irremediable Condition

Irremediable Condition

The few times I have seen her
her exuberant hair - long curly
waves conquering her back
wrapping her serious smile in a
dark silver cuddle - persisted
as a symbol of our hopeless
love.

© 2017, José Coelho


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Considerações Baronescas

Considerações Baronescas

I
Todas as manhãs ocupo a posição do sol
da mesma colina do declínio, observo o fascínio
Iludem-me os desnexos das constantes repetições
no dia que entra. A jorros de noroeste
um contínuo sacudir de estevas e acácias ensaia o vento
e envolve

a desconhecida que veio para o funeral do irmão
o músico organista de feições graves e funestas
o café central e toda a sua horda de clientes sabáticos
os cães livres de trelas e donos
os poetas plantados pelo caminho que é deles
os que, sendo poucos, fazem muito
os que, sendo muitos, fazem pouco
os que gemem e riem, alto, enquanto existem
os que leêm, seduzidos ou esquecidos
da nostálgica complacência dos que longe
os exaltam e excedem no olhar
os condoídos, de bíblia de bolso sempre na mão
reféns de uma fé amarelecida pelo tabaco
nas ponta dos dedos e fotos da Nossa Sra de Fátima, suadas
nas bordas e ainda os velhos, sentados, sonolentos
ao redor de mesas, como virgens apascentadas
pelo ocaso da vida

II
Todas as manhãs, subverso, deslizo sobre a terra
e faço-me um Deus-sol a repartir humanas e cansadas
peleias

Pelas ramadas e muros alvos cresce
a forma abstracta
por dentro alheia, à cor e ao cheiro
circunscreve a ideia de
paz e antípoda

    [deixando de querer
      vive-se, tolera-se uma presença presa]
apenas ancorada nas sombras
das árvores que ouso olhar
seduz-me o dom dos pequenos vícios presentes
no verso das paisagens

III
Todas as manhãs, uma imensidão de objectos
descartáveis, passa e sopra uma oração
surda

[Senhor, a verdade é que não
sou igneo, por certo morri já, frio e apenas
me invento numa loucura de estio]

onde a alma se esgota. Deixei de tolerar
o adeus; das pessoas reduzo-me a uma
frase sintética, tipo – etiqueta oceânica, sem sal
e esquivo-me à intimidade de gestos
lunares

Deposito uma hóstia de cinzas
num delírio de corações cremados e aceno
ao indelével contorno dos campos onde
corpos renascem

sempre.

© 2017, José Coelho

sábado, 29 de julho de 2017

Dali's Green Pinnacles

At this point I realize how weak is the strength of one's direction. If l say effervescent and pearl, you'll think glass onions. For a while the freezer, cracking the ice. Feet on cooled ground, waiting about wasted ideas. My hands seem dirt, though they're not. Old tree mastering new words, reads them and cries. I'm thirsty, so I climb and pluck, softly. People arrive as dreams floating in the sea. They feel happy for a time. Short and narrow. The fruit is sweet, sappy, intense. Its colored evidence tinges earth and fingers rise above the skyline. This is not a mere coincidence, but the fairy tale house is spot on me. Birds keep flying above the green pinnacles of Dali. People start sadly leaving. Emptied hands, blinded hearts.

© 2017, José Coelho

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Not Enough

*Not Enough*

It's not enough to be
a bird must know freedom

as well as red, orange, yellow
seaweed collecting uncertainties

dripping from the sky
may death be its listener

and we, rivers
thinning out until sparsely visible

parts meet the ocean
only to become their collective zeal;

but it's not
enough to be a bird and die 

without knowing.

© 2017, José Coelho




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Prolongar e Moldar

Prolongar e Moldar

De uma vigília inútil
a ideia
ante uma longura contida

desperto
num saber de caminhos
confluentes

e uma brandura é
sacudida
a cada segundo nesse su-sudoeste

os ventos
prolongam e moldam o querer ao ser
subliminarmente

porque tudo é
sem o querer ou
saber

© 2017, José Coelho


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Ideias numa Cidade

Ideias numa Cidade

Pelas 18:00 a tarde é um discreto bulício
um ir e vir estudantil

filtram-se olhares pelas frestas dos estores

há uma azáfama de pássaros a entender
as horas, como se
crias e ninhos

Da loja de discos à tabacaria
num roteiro de conchas, búzios, cavalos marinhos
mini pipas recheadas, anzóis e 
um ou outro sol, aprende-se

Por vezes as pessoas
adormecem e nem os passos se encontram

Tudo assenta num fétido e matricial
leito escuro

De esquinas palpáveis, conhecedoras
dos tacões e vozes de quem as
vira, saem
vizinhas aprumadas

Nos escaparates alinham-se revistas
estrangeiras de olhar disperso, impúdicamente
amaciam a pele e o rosto

O cheiro a borracha Sanjo

À passagem pelos arcos define-se
o momento do medo
ou do suculento ódio por tudo

Aí, engraxadores dedicados
todos escovas e pomadas
num hábito de senhores
e pedantes
exercem

a espera polida e sempre
o pano
sebáceo
na mão a graxa negra
e o odor ao vício

Do outro lado, homens
encostados à parede

melenas alinhadas numa réplica de templos
húmidos

de cabeça baixa, por vezes lançando
um olhar curioso ou então
nada
apenas fixados na enorme ventoinha de hélices pesadas, a lembrar 
remos de um tempo
de sal e marés
vazadas

Algumas paredes são
espelhos
dos quais fugimos

É lá que a minha presença se desvanece
Se fosse agora, morria ou
seria meio
mas sendo fraco, obrigo-me.

© 2017, José Coelho


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Apenas Ela sabe

Numa mente infinita, qual é
o sentido do espaço
e dos nomes
tiramos significados ou aluímos
caminhos

In an infinite mind, what is
the sense of space
and of names
do we make meanings or subside
paths

© 2017, José Coelho