quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A Aldeia (Barão Reports)

A Aldeia

Cascalho revolto denuncia a aproximação
e o muro branco
a esboroar-se - matéria luz
dos resíduos incólumes
apertando-me o peito -
cinge-me a clareza de imagens
reflectidas na textura rugosa
do teu abraço
maternal

em frente, avança-se rumo à
limpidez
e ao despertar
prometido

singelo, ausculto os nomes
guardadores de casas
como se acometido pelo ímpeto
da reinvenção do mundo
e de ti
singram jardins exóticos
sacudindo palmeiras e jacarandás
em camâra lenta
contida

Aqui, o tempo
não corre, desliza
quando chove
encostado à geometria
poética das amendoeiras e ao contorno
suave, dos moinhos
abandonados

Prometo à lua um torrão
de terra, daquela castanho-vermelha
daquela onde o restolho
descansa
à minha espera – terra
abençoada, terra
prenhe, sensual, na forma
e na cor
viciante

e o seu brilho -
que há de brilhar
e dar vida ao muro, às casas
aos nomes
onde as osgas brincam
em jardins, sozinhas -
alcança a plenitude.

© José Coelho, 2015


domingo, 23 de agosto de 2015

Sugadouro Sul

Sugadouro Sul


A falha estendia-se intermitentemente, de norte para sul, ziguezagueando como um rio em plena afirmação. Nos seus bordos, pequenos pinheiros mansos, salpicando a terra de esperança, cresciam

As pessoas agrupavam-se aleatoriamente em filas, dispersas, atraídas pela sede de espectáculo, como moscas ao cheiro de fezes ou de sangue.

Naturalmente, a fenda aspirava tudo numa vizinhança íntima, de tempos a tempos. Isto era bem conhecido.

Quem vinha sabia que, das duas uma: ou ia ser sugado para as suas entranhas, qual vítima de um parto em sentido reverso ou ia ser testemunha da irreversível ocorrência. Algumas pessoas não saberiam dizer qual das sortes escolheriam, qualquer delas digna de experiência.

Uma alimentava o medo, essa matéria prima de fascínio universal. A outra resumia e consumava tudo num ápice, voraz e implacávelmente.

A maioria das pessoas, ansiava por esse ápice. A esperança no desconhecido sendo superior à certeza da catástrofe.


© José Coelho, 2015





quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Better People


Each Day

we invent

machines, better machines

what about

people

better
people

for pleasure
finer pleasure
able to scream, repetition, out
and loud

people able to feel
sand
under their feet – a qualm of ignorance
we tend to neglect -
and acrid sweat
in their cozy armpits -
playing

we ought do this shit
right? In order
to avoid late
frustration

Each day

for the sake of
pleasure and all its affiliates -
erótica, literature, art – let's take
a walk in the park and watch
people
talking, dancing, kissing, sitting
in benches
their faces' expressions, contagious
their bodies' swing, melodic
along paths

Then, go home and improve
yourself.


© José Coelho, 2015



Will You Have Some Poetry?

Why is poetry
so important?
It's not
that one dies of it's shortage

it's just that
one
will die sooner

Poetry books, school, mom and dad
should make this clear

Poets, know that all the time;
that's why they
drink
smoke
take dope
among other private techniques

because, originality has a short
life span
and these guys
they need it so bad
they even call it
a muse

In my case, I bravely
keep the addiction up to a minimum:
avoiding poetic moments
reading technical books
or comics – but that's not poetry -
and most coercive
watching TV

What about you?


© José Coelho, 2015


terça-feira, 18 de agosto de 2015

June


June

Say June
everything is properly named, rooted
in its own place, waiting
as precision instruments wait
for their measure
to happen

Say June, why do you nibble
your lips
with pudency
while others gaze
in awe

It just seems so simple; time
constructs rivers
full of water, the same water you
drink, June
            drink, June
the very same liquid
flowing in your hands, eyes, teeth
wetting your spring-purple-lips

orchestras rise from the deepest
ground -
their rhythm matter
an anchor to
love

Say June
would you give me a dancing

and she smiled


© José Coelho, 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Inexaurível Mundo Novo (versão completa prosa poética)


Inexaurível Mundo Novo

Parte I

Há tardes em que me sento, de olhar fixo para lá da janela e nada me ocorre senão diluir-me nas cores que enchem a retina.
Então as formas perdem um significado; gradualmente, deixam de ser úteis ou convictas, caindo por terra como pedaços de origami, esquecidos.
Nesses momentos, o mundo é uma coisa difusa, intensamente onírica e tudo decorre numa doçura líquida, de evocações infanto-juvenis.

Parte II

E então de repente daquela superfície amorfa, colorida surgem relevos, sombreados que se acentuam, recriando uma realidade a 3d, sobreposta à que a subjaz.
Noutro dia, no meio de tais contemplações, deparei-me com uma senhora que estendia a roupa numa corda levantada por dois paus.
Ela vestia uma bata, feia, de matiz dourado, familiarmente cinzenta com um padrão a lembrar vértices e formas angulares.
A roupa sacudia-se ao vento da manhã e o sol, esse olho-mãe cósmico, ofuscava-a e a mim, quase.
Parte III

Tudo se passava numa espécie de pátio, cimentado, com arrumos num dos lados. Ao longe, por detrás de prédios, erguia-se,ensimesmado, o campanário de uma igreja, branco, em forma de zimbório, ocultando vestígios de pura religiosidade.
E assim, neste novo mundo, os detalhes iam nascendo da minha própria vontade de observação, mais ou menos detalhada, à semelhança de uma paisagem digitalmente elaborada.
Por exemplo, conseguia ver as ervas crescendo entre as rachas, no cimento ou as formigas trilhando paredes num passar oblíquo e alheio; mas também a silhueta de corpos magros, incertos, revelando modestas distracções atrás de cortinas de voil.
O que, no entanto, mais estranheza me causou, foi uma invasão de cães rafeiros, que em matilha e ocupando uma superfície nesta tela surreal, fluíam da direita para a esquerda e vice-versa, em constante alternância de direcção.
Então apercebi-me que tudo se passava dentro de um copo; uma mão omnipresente - sim tal era o caso nesta minha consciente alucinação – segurava-o, abanando-o, assim causando essa oscilação.
Porém, tudo o resto permanecia fiel ao comportamento esperado, ou seja, senhora, corda, roupa, casas e igreja, tudo isso era agora como uma cena submersa ou numa apropriação digital, camada que tivesse sido fixa, protegida de alterações à posteriori.
Nesse momento, estupefacto com tudo o que aparentemente decorria de uma forma sensorial à minha frente – sim, era essa a impressão! - ocorreu-me ser eu próprio, a dirigir o guião da minha privada loucura caseira e então com a força da minha vontade pensei na mão como minha – sim apropriação será o termo - tendo de seguida pousado o copo, cuidadosa e vagarosamente, entornei-o.

Parte IV

A massa de água era agora, uma coisa transitória no espaço e homogénea no tempo; os cães não eram mais que partículas de impureza revolvidas no fluxo que a ligava à terra. E, à medida que o fio de água condutor vazava o copo, tudo presente na camada inferior – senhora, roupa, corpos, zimbório - se diluía numa matricial força externa.
Para todos os efeitos, era como se a água, ao ligar copo e terra, me transferisse delicadamente do meu novo para o velho mundo. Nada disto foi premeditado. Nada foi desejado, para lá das opções tomadas no limiar de cada momento.
O reagrupamento, deu-se naturalmente – de novo as cores encheram as formas e estas adquiriram a utilidade conhecida.
Voltei a ver o azul da piscina, na piscina e o verde das folhas, nas folhas; os carros estacionados no sopé do muro de pedra, o prédio dos vizinhos, a roupa na varanda, o bambu nas traseiras do jardim e o céu, esse voraz companheiro – tudo se refez, de novo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Flowers

Flowers

sprout from the inside out
their bodies bouncing to the smell
of sex
appeal, in plural, is wider
and stronger;
surviving skills, requested
for the longer
run

flowers, become
the present, in plural
and that is simply a beautiful
truth

we should recognize flowers
from the way
they move their petals

as insects
do.


© José Coelho, 2015